Arthur -
Começou com um lindo nascer do sol, que acabou servindo de
prêmio de consolação por uma noite pessimamente
"dormida". Alguém me ajudou a dar um novo nó na corda
da rede, e eu a estiquei um pouco mais. Essa noite deve ser melhor
(talvez as sonhadas 4 ou 5 horas de sono).
Voltando: o sol nasce vermelho, uma bola de fogo linda.
Emocionante. Podemos sentir o seu calor surgindo e
aumentando.
Depois, passei muito mal e vomitei. Melhorei 100% depois disso.
Falando no sol, o calor é imenso. Já se sai do banho
suado. Os banheiros são pequenos forninhos, muito quentes (e
limpos).
Um mar de coisas acontecem durante o dia, e quando você olha
a hora percebe que são 10h30 da manhã. Ainda
há o dia inteiro pela frente. O tempo não passa.
Durante o dia, o convés superior fica bem claro, o sol
queimando de verdade. Ao lado do navio, um mini arco-íris
nos acompanha (formado pela água que sai). À noite, o
convés superior fica fresco, e repleto de insetos
gigantes.
Hoje um passageiro exagerou um pouco na bebida (começando
às 7h30!) e acabou criando confusão, inclusive com
responsáveis pelo barco chamando-o para conversar.
A questão aqui é arranjar ocupação para
que o tempo passe. Conversar com o americano, com o colombiano, com
o Reginaldo Rossi e outros passageiros são algumas formas.
Jogar dominó é outra.
P.S.: enquanto escrevo isso na rede, à noite, insetos caem
sobre mim!
Mario -
Ontem o dia foi meio diferente do primeiro (estou escrevendo meu
relato um pouco atrasado). Começo a entender algo de como as
coisas funcionam por aqui. Ainda não toquei flauta. Pretendo
começar após um gostoso cochilo que pretendo dar ao
acabar esse texto.
Acordei, assim como hoje, antes do sol nascer. O momento da
manhã é o melhor na minha opinião. Como o sol
ainda não está forte dá pra curtir bastante o
convés superior.
Intervalo para explicar o barco: são 3 convés
(andares); o inferior (principal) vai repleto de cargas; abaixo
dele tem a sala de máquinas, um compartimento refrigerado e
vários espaços vazios que é para o barco
não afundar. O segundo andar (convés superior)
é onde ficamos: tem banheiros, copa, refeitório,
alguns camarotes e é onde fica a sala de comando. O
último andar chama-se convés do passadiço e
tem uma lanchonete, camarotes da tripulação e uma
grande área de lazer cheia de sol e estrelas pela noite. As
estrelas sempre me fascinam e amo subir à noitepara
vê-las. Demos sorte, estamos em noite de lua nova.
Fui à sala de comando, pois o comandante mostrou-se bastante
solícito enquanto eu desenhava esses mapas. Eles fazem o que
é chamado de navegação de conhecimento.
Não tem GPS! Eles têm um radar de profundidade e muita
experiência e daí vamos nós. Os camarotes
são bem confortáveis e dá pra fazer uma viagem
bem mais alto nível. Tem banheiro particular, ar
condicionado e TV.
Como não tem muito o que fazer, conversamos. E como
conversamos! Não sei se é a minha personalidade, mas
converso o tempo todo. Pela manhã conheci o Jerry, um
americano do Texas que trabalhou anos, depois vendeu sua empresa e
está de férias (ou aposentado) e resolveu curtir a
América Latina. Teve um negócio que me marcou: ele
comentou chocado de sua viagem à Tailândia, onde um
cara comprou uma menina de 14 anos para ser sua mulher. Eu defendi
minha opinião que não podemos criticar culturas que
não entendemos muito bem. Qual foi minha surpresa quando
descobri que a menina que viaja ao meu lado casou-se com a mesma
idade, e aos 15 anos já era mãe, parecendo
satisfeita com sua vida. Acho que isso é relativamente
normal por aqui.
Em minhas conversas ouço falar muito de tráfico de
drogas. Pelo que observo, centenas de quilos de cocaína
refinada ou "mel" (pasta de coca) trafegam pelo rio, pela selva e
pelo ar. Ouvi histórias de brigas com índios, e um
camarada descreveu como seu amigo foi morto por
índios.
Ouvi também como se garimpa ouro, e como é feito o
processo para retirá-lo do rio. É bastante
interessante.
Me senti um pouco assustado com o que me sucedeu no bar. O "bebum"
que o Arthur falou - chama-se Nei - por alguma razão
simpatizou comigo, e eu também simpatizei com ele. O cara
é trabalhador e está há oito anos sem
férias, e agora resolveu visitar a mãe; gosta de cana
e bebe um pouco demais. Esse cidadão criou encrenca com
outro cachaceiro que achei com aparência mais violenta. O Nei
não parou de chegar perto de mim para oferecer cerveja,
apertar minha mão e dizer que sou seu amigo. Resultado: o
outro "bebum" veio tirar marra comigo; fiquei um pouco assustado,
mas também sou marrento e olha o problema no ar. E eu
só queria ficar lá em cima para pegar um bronze e ver
o que toca por aqui - e como toca: pagode, forró, rock,
indo de Scorpions a banda Calypso e Los
sei-lá-o-quê.
Descobri que a boa é ficar no sapatinho aqui embaixo mesmo,
e hoje, enquanto fazia minha ginástica matinal (logo
após o nascer do sol), o tal mau encarado sentou-se ao
meu lado e me contou toda a sua vida. Disse que é do
exército, que serviu no Rio de Janeiro, que quebrou a
cabeça na moto, etc. Agora sempre que o encontro ele me
aborda e travamos alguns papos; ele é meio mala, mas vi que
não tem ninguém bolado comigo por aqui.
Para fechar, aprendi a jogar dominó com regras de
pontuação com os coroas da área. É
sinistro! Mas estou aprendendo. Já tenho umas 5 horas de
vôo de dominó. Ha ha ha.
Arthur - Adendo:
depois de terminado o relato, ainda subimos (eu, Mario e
Selma, a tal local com a qual fizemos amizade - que casou
cedinho e já é mãe) para ver o céu
cheio de estrelas, muito legal.
Legenda: mapas do barco feitos pelo Mario em nosso
caderno de relatos