Home Data de criação : 07/03/23 Última atualização : 07/05/05 17:36 / 23 Artigos publicados
 

Este blog...  escrito em sexta 23 março 2007 02:33

... foi feito para registrar uma das viagens mais legais que eu, Arthur Engel, fiz em toda a minha vida.
Eu e Mario Scheel, grande amigo de tempos e tempos, finalmente pusemos em prática, em agosto de 2005, a idéia de viajar de mochileiros pela América do Sul. E que viagem!

Desde que cada um anunciou a viagem na família e entre amigos, os avisos não pararam de surgir: vocês estão loucos, vocês vão morrer, vão levar tiro, pegar malária, entre outras afirmações.

Apesar dos "incentivos", seguimos em frente com a idéia! Tiramos férias, conseguimos permissão de nossas respectivas, bolamos o itinerário, tomamos as vacinas e partimos para o primeiro destino, a Amazônia!

Saímos do Rio de Janeiro no dia 04 de agosto de 2005. Por questões de logística (comprei milhas do Mario para a cara viagem de avião), fomos em vôos separados até Manaus! Lá chegando, resolvi comprar um caderno, onde as anotações (no melhor estilo "Diários de Motocicleta") começaram. Aliás, a única coisa cara nessa viagem foram a ida e a vinda de avião. Todo o restante foi muito barato, e olha que passamos por outros três países!

Mas chega de papo! O que vocês verão a seguir são nossos relatos originais da viagem, dois relatos por dia. Algumas fotos também estão postadas para dar água na boca e encorajar os próximos aventureiros! Um abraço

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Dia 1 - 04/08/2005  escrito em segunda 26 março 2007 00:28

Na verdade, eu não fiz um relato no primeiro dia. Apenas escrevi alguns tópicos com o intuito de desenvolver depois, e acabei nunca fazendo. Vou tentar fazer uma pequena elaboração agora, mas na verdade o relato do Mario é que melhor espelha o primeiro dia.

Arthur - Acordei bem cedo, animado para a viagem. No táxi a caminho do aeroporto, vi o sol nascer na Ponte Rio-Niterói. Meu vôo para Manaus, com escala em Brasília, acabou atrasando bastante. Encontrei os Paralamas do Sucesso no mesmo vôo, e fui falar com eles no aeroporto de Brasília. Dar uma de tiete, enfim.
              Na viagem Brasília-Manaus, fui sentado ao lado de um garotinho chamado Ícaro, que viajava sozinho. Um piloto da companhia que estava viajando nesse vôo sentou-se ao lado dele, para distraí-lo. Mas não soube responder à pergunta de Ícaro, depois da exibição do vídeo sobre segurança: "Por quê quando cai a máscara a pessoa tem que colocar primeiro nela, e depois na criança?"
              Chegando no aeroporto de Manaus, foi uma alegria só! Nossa viagem estava começando. Encontrei o Mario, e aí fomos pegar um documento antes de ir ao hotel, para nos livrarmos logo da obrigação. Acabamos nos perdendo na estranha avenida. Depois, compramos uma rede pra mim (essencial para o barco) e fomos também na estação hidroviária, nos inteirar dos horários dos barcos para Tabatinga (fronteira com a Colômbia), nossa próxima parada. Daí, fomos para o Hotel Continental, barato e tranquilo.

 

Mario -   A ansiedade pela viagem me fez sentir sensações adversas; estranho mundo em que verifico meus bolsos e não tem celular, nem agenda, nem chaves. Ninguém me liga, e não preciso ligar para ninguém. Arthur chegou logo no aeroporto.
              A primeira impressão da cidade veio dos céus; ao pousar, deu pra ver os rios Solimões e Negro. O primeiro mais barrento, o segundo mais escuro, ambos imensos.
              Devido à pendências profissionais, nossa primeira missão foi pegar um Edital na r. Djalma Batista, 343. Pareceu-me uma tarefa simples, mas nunca vi nada igual: para começar, a rua deve ter uns 10 km de extensão, e quando chegamos nela vimos o número 27. "Devo estar perto", mas ao lado do 27 era o número 2447, e os números se alternavam crescendo e diminuindo sem nenhuma lógica. Até números pares encontramos nesta face da rua. O que sentimos também foi a hospitalidade do povo; além de nos ouvirem e tentarem ajudar, outras pessoas paravam na rua para tentar ajudar, também em vão.
              Fomos para um hotel no centro, simples mas confortável. Como estamos próximos da estação hidroviária, fomos nos informar de nosso tour para Tabatinga. A estação parece uma Cobal, com vários barezinhos, música ao vivo e o velho mais tarado que já vi na vida. Não sabia nos informar sobre o tempo de viagem, mas cantarolava suas aventuras amorosas e, se forem verídicas, comprovam minha tese.
             Muito divertida e muito quente, assim me pareceu Manaus - uma cidade mediana com um povo muito alegre. Vou tocar minha flauta em homenagem a esse relato!

 

Arthur - Adendo: incrível como o Mario conseguiu dormir, feliz e tranquilo, no banco de concreto que fica no ponto de ônibus!

Legenda: eu (Arthur) e Mario assim que chegamos a Manaus

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Dia 2 - 05/08/2005  escrito em segunda 26 março 2007 01:04

Arthur - Estranho sentimento acordar achando que se está em casa; e aí, aos poucos ir percebendo que você está num hotel. O calor está forte.
              Na verdade, o calor é imenso! Nem dá vontade de sair da estação hidroviária, onde compramos as passagens e almoçamos, muito devido ao ar-condicionado. Aliás, os pratos são sem feijão, que absurdo!
              Novamente, nos fascinou a hospitalidade do povo de Manaus!
              Aproximadamente às 14h45 entramos no barco - e aqui ficaremos por 6 dias. Minha primeira impressão ao chegar no segundo andar, onde viajam todos, foi de choque. Foi um baque de "o que estou fazendo aqui?" ou "por quê não compramos camarotes?". Haviam mais de 50 redes penduradas, numa área não muito grande. Na verdade, as redes distanciam-se umas das outras em 2, 1 ou até mesmo meio centímetro! Depois de algumas dificuldades, conseguimos nos acertar com nossas redes.
               Há gringo, mas todos em camarote, a exceção de uns 2. Minha rede é a primeira de todas, então muita gente que passa esbarra nela. O sol da manhã deve bater em nossas redes, então acordaremos cedo. O barco é legal, nada demais. Nossa partida estava marcada para às 16h00, mas creio que saímos por volta de 20h30. Nunca sabemos a hora por aqui.
               Enfim, as coisas estão boas no barco, melhores do que imaginei. Só poderemos ter um visual bacana amanhã, quando tiver sol. Espero dormir pelo menos umas 4 horas. Descobri agora que são 20h50, e que na verdade partimos 19h30. Como disse, não temos idéia da hora nessa viagem. Fim.
P.S.: os rios (Negro, Solimões e o próprio Amazonas) são imensos. Alguns insetos também.

 

Mario -    Que loucura! O ambiente por aqui é realmente muito diferente. Não é violento e não me sinto inseguro. Acho que a cidade grande nos deixa constantemente em alerta. Você tem medo de desgrudar de qualquer coisa, medo de estranhos, de violência e de mau caratismos. Por aqui, só vejo pessoas alegres, com rugas nas covas que fazem quando sorrimos. As malas ficam por todos os lados e rapidamente já conhecemos uma série de pessoas. Estamos num barco que transporta moradores e cargas, tem mantimentos mil, móveis, eletrodomésticos e até motos!
               Problemas bobos, mas todos resolvidos: a rede ficou show, meu sapato precisou de reparos e a vida continua.
               Não tenho palavras para descrever minhas emoções. Ver Manaus se afastar e o barco rumar para o infinito negro é realmente fascinante. É o início desta grande aventura.

 

Arthur -  Adendo à população do barco: devem haver aproximadamente 70 redes agora, e todo o tipo de coisa pendurada (frutas, roupas, toalhas, etc.). Há desde bebês até idosos. A maioria está, no momento, dormindo ou vendo tv (há 4 tvs nesse convés). O gringo (meu ex-vizinho de rede) é sósia do Eduardo Dusek. Como são 6 dias de viagem, talvez hajam relatos longos como esse.

Legenda: o mar de redes no barco 

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Dia 3 - 06/08/2005  escrito em segunda 26 março 2007 02:14

Arthur - Começou com um lindo nascer do sol, que acabou servindo de prêmio de consolação por uma noite pessimamente "dormida". Alguém me ajudou a dar um novo nó na corda da rede, e eu a estiquei um pouco mais. Essa noite deve ser melhor (talvez as sonhadas 4 ou 5 horas de sono).
              Voltando: o sol nasce vermelho, uma bola de fogo linda. Emocionante. Podemos sentir o seu calor surgindo e aumentando.
              Depois, passei muito mal e vomitei. Melhorei 100% depois disso. Falando no sol, o calor é imenso. Já se sai do banho suado. Os banheiros são pequenos forninhos, muito quentes (e limpos).
              Um mar de coisas acontecem durante o dia, e quando você olha a hora percebe que são 10h30 da manhã. Ainda há o dia inteiro pela frente. O tempo não passa. Durante o dia, o convés superior fica bem claro, o sol queimando de verdade. Ao lado do navio, um mini arco-íris nos acompanha (formado pela água que sai). À noite, o convés superior fica fresco, e repleto de insetos gigantes.
              Hoje um passageiro exagerou um pouco na bebida (começando às 7h30!) e acabou criando confusão, inclusive com responsáveis pelo barco chamando-o para conversar.
              A questão aqui é arranjar ocupação para que o tempo passe. Conversar com o americano, com o colombiano, com o Reginaldo Rossi e outros passageiros são algumas formas. Jogar dominó é outra.
              P.S.: enquanto escrevo isso na rede, à noite, insetos caem sobre mim!

 

Mario -  Ontem o dia foi meio diferente do primeiro (estou escrevendo meu relato um pouco atrasado). Começo a entender algo de como as coisas funcionam por aqui. Ainda não toquei flauta. Pretendo começar após um gostoso cochilo que pretendo dar ao acabar esse texto.
              Acordei, assim como hoje, antes do sol nascer. O momento da manhã é o melhor na minha opinião. Como o sol ainda não está forte dá pra curtir bastante o convés superior.
               Intervalo para explicar o barco: são 3 convés (andares); o inferior (principal) vai repleto de cargas; abaixo dele tem a sala de máquinas, um compartimento refrigerado e vários espaços vazios que é para o barco não afundar. O segundo andar (convés superior) é onde ficamos: tem banheiros, copa, refeitório, alguns camarotes e é onde fica a sala de comando. O último andar chama-se convés do passadiço e tem uma lanchonete, camarotes da tripulação e uma grande área de lazer cheia de sol e estrelas pela noite. As estrelas sempre me fascinam e amo subir à noitepara vê-las. Demos sorte, estamos em noite de lua nova.
               Fui à sala de comando, pois o comandante mostrou-se bastante solícito enquanto eu desenhava esses mapas. Eles fazem o que é chamado de navegação de conhecimento. Não tem GPS! Eles têm um radar de profundidade e muita experiência e daí vamos nós. Os camarotes são bem confortáveis e dá pra fazer uma viagem bem mais alto nível. Tem banheiro particular, ar condicionado e TV.
               Como não tem muito o que fazer, conversamos. E como conversamos! Não sei se é a minha personalidade, mas converso o tempo todo. Pela manhã conheci o Jerry, um americano do Texas que trabalhou anos, depois vendeu sua empresa e está de férias (ou aposentado) e resolveu curtir a América Latina. Teve um negócio que me marcou: ele comentou chocado de sua viagem à Tailândia, onde um cara comprou uma menina de 14 anos para ser sua mulher. Eu defendi minha opinião que não podemos criticar culturas que não entendemos muito bem. Qual foi minha surpresa quando descobri que a menina que viaja ao meu lado casou-se com a mesma idade, e aos 15 anos já era mãe, parecendo satisfeita com sua vida. Acho que isso é relativamente normal por aqui.
               Em minhas conversas ouço falar muito de tráfico de drogas. Pelo que observo, centenas de quilos de cocaína refinada ou "mel" (pasta de coca) trafegam pelo rio, pela selva e pelo ar. Ouvi histórias de brigas com índios, e um camarada descreveu como seu amigo foi morto por índios.
               Ouvi também como se garimpa ouro, e como é feito o processo para retirá-lo do rio. É bastante interessante.
               Me senti um pouco assustado com o que me sucedeu no bar. O "bebum" que o Arthur falou - chama-se Nei - por alguma razão simpatizou comigo, e eu também simpatizei com ele. O cara é trabalhador e está há oito anos sem férias, e agora resolveu visitar a mãe; gosta de cana e bebe um pouco demais. Esse cidadão criou encrenca com outro cachaceiro que achei com aparência mais violenta. O Nei não parou de chegar perto de mim para oferecer cerveja, apertar minha mão e dizer que sou seu amigo. Resultado: o outro "bebum" veio tirar marra comigo; fiquei um pouco assustado, mas também sou marrento e olha o problema no ar. E eu só queria ficar lá em cima para pegar um bronze e ver o que toca por aqui - e como toca: pagode, forró, rock, indo de Scorpions a banda Calypso e Los sei-lá-o-quê.

               Descobri que a boa é ficar no sapatinho aqui embaixo mesmo, e hoje, enquanto fazia minha ginástica matinal (logo após o nascer do sol), o tal mau encarado sentou-se ao meu lado e me contou toda a sua vida. Disse que é do exército, que serviu no Rio de Janeiro, que quebrou a cabeça na moto, etc. Agora sempre que o encontro ele me aborda e travamos alguns papos; ele é meio mala, mas vi que não tem ninguém bolado comigo por aqui.
               Para fechar, aprendi a jogar dominó com regras de pontuação com os coroas da área. É sinistro! Mas estou aprendendo. Já tenho umas 5 horas de vôo de dominó. Ha ha ha.

Arthur - Adendo: depois de terminado o relato, ainda subimos (eu, Mario e Selma, a tal local com a qual fizemos amizade - que casou cedinho e já é mãe) para ver o céu cheio de estrelas, muito legal.

Legenda: mapas do barco feitos pelo Mario em nosso caderno de relatos

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Dia 4 - 07/08/2005  escrito em quinta 29 março 2007 17:18

Arthur - Acho que começamos a pegar o espírito da viagem. Não há pressa aqui, embora apenas poucas pessoas estejam passeando, como nós. Ninguém se importa com os atrasos que a viagem tem, e faz todo o sentido. A viagem está sendo um barato, e ela leva o tempo que leva. É algo livre, não controlado. Todos ajudam a todos e são simpáticos (exceto a francesa). O colombiano e a esposa são muito gente boa, e conversamos bastante sobre várias coisas, desde geografia, política, futebol, etc. Ele me mostrou o camarote deles, e os livros brasileiros que comprou. E conversamos sobre nossos idiomas, naturalmente.
             Aqui no barco tempos uma comunidade, ou um grupo, como bem definiu Freud em 1920.
             O Flamengo perdeu. Tem vários flamenguistas aqui, apesar da distância. Conheci um chileno psicólogo (junguiano e humanista), com suas flautas primitivas e as pulseiras que faz.
             A fauna e a flora são muito bonitos. Pássaros de cores e trinados diferentes. Árvores estranhas, intrigantes.
             Ontem tivemos bingo. Nenhum dos nossos conhecidos ganhou nada. Estou lendo "Alice no país das maravilhas", em inglês, que comprei no aeroporto de Brasília. Muito bom, cheguei quase na metade.
             O pôr do sol e seu complementar são lindos. Aqui observamos o sol nascendo todos os dias. Sempre acordamos muito cedo. Está sendo uma viagem excelente até agora. Daqui a pouco faremos a primeira parada. Vou bater umas fotos agora.

 

Mario -   Enfim peguei minha flauta! Peguei e toquei bastante... comecei com várias músicas alegres e logo ganhei muitos fãs; estava um pouco envergonhado no início, mas passou logo. Acho que todos gostaram, um monte de crianças ao meu redor se encantavam com o brilho e som da minha flauta, tão belo e desconhecido para eles - ninguém com quem eu conversei já viu algo parecido. Apenas conhecem flautas doces ou de bambú. Agora vou tocar mais e, com isso, meus relatos podem ficar mais curtos.
              Por aqui você faz o que quer e pode ocupar o seu tempo como bem entender. Perdi um pouco a noção dos dias e das horas, para descobrir que hoje é segunda-feira precisei fazer contas.
              O colega do Arthur, o "junguiano-humanista" de nome René é gente boa e me aproximei dele através da música; ele tem duas Nassari (flauta de bambú indiana) que ganhou de um amigo que foi pra lá. Elas têm um som gostoso e toquei com ele suas flautas por algumas horas - antes do bingo e pela manhã ao nascer do sol. Ele faz pulseiras e comprei duas: uma pra mim e outra para meu amor, que lembro constantemente. Escolhi as cores, os trançados e as pedras de ambas, e as vi sendo feitas enquanto tocava minha flauta com outro latino acordeonista. Enquanto ele fazia a pulseira da Ana, uma borboleta de cores semelhantes pousou no trançado, abençoando este presente.
              Resolvi começar a falar espanhol e em um dia de esforço já consigo conversar um pouco. Muitas palavras são parecidas, e com algum esforço você pega rápido. Sinto que os latinos têm dificuldade com o português, e me ajudam quando vêem meu esforço. "Sinto qui ao regresar a mi terra estarei a hablar e oir español bien mejor".
              A paisagem é muito bonita e é sempre muito bom olhar as árvores e os rios; ouço nomes sem fim de frutas, animais, árvores e insetos. 
              Ontem vi "Procurando Nemo" e conheci a paquinha (pequeno inseto muito feio que faz cócegas nas mãos). De resto, nada de novo: como quando tenho fome, durmo quando tenho sono, acordo antes do sol nascer e vou levando - como todos por aqui.
              Essa noite minha rede arrebentou. Agora está bem amarrada.

Legenda: Mario e Arthur no convés superior do barco

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