Mario - 18º
dia de viagem, no ônibus, rumo a Desaguadero, na
fronteira com a Bolívia. 14h00, algum sol e algum frio.
Ontem chegamos a Puno, na beira do Titicaca, em nossa viagem de
trem. Vale ressaltar que vimos um pôr-do-sol
fantástico nos Andes. Não digo que é o mais
bonito, pois já perdi essa noção faz tempo.
Tudo é bonito, cada um de seu modo. A dança no trem
que o Arthur mencionou foi bem legal mesmo, coloquei um
chapéu e uns enfeites típicos e corri bailando pelo
vagão com a peruana que cantava com uma voz meio Yoko Ono,
enquanto eu fazia uns iá-iá-iá no mesmo ritmo.
Viajei.
Puno assemelha-se à Cusco em alguns aspectos. Vive bastante
de turismo. Tem uma "Plaza de Armas" e um centrinho. Aqui tem uma
rua meio "rua das pedras" em Búzios: as pessoas andam de um
lado para o outro e tem vários barezinhos com som rolando
(muito rock-reggae!). Para variar, gringos de todas as partes do
mundo. De manhã, acordamos cedo para fazer um tour pelo
Titicaca. Aí começa mais uma grande aventura.
O
Titicaca é imenso. Mais de 8000 m2 de área e atinge
profundidade de mais ou menos 250 metros em algumas partes.
SInistro. Em muitos lugares não se vê o outro lado.
Nas margens, e até bem dentro do lago nasce um "capim" de
nome totora - bem mais grosso que um capim normal. Em alguns pontos
existem ilhas disso (umas 40); são emaranhados de totora,
ancorados no lago, e as pessoas vivem em cima, também em
casas feitas de totora. A água é bem clara, e para
mergulho parece ter uma visibilidade fantástica.
Também é bem oxigenada. Há uma variedade de
peixes pequenos mas comestíveis (nativos) e trutas que
crescem até um metro (povoada).
Nosso
passeio foi ir visitar um conjunto destas ilhas flutuantes, Nada
demais: barquinho, gringo à vera, um guia mala. Acho que foi
um pouco de loucura da minha parte, mas "me gusta las locuras".
Subi no segundo andar do barco (ancorado numa ilha), tirei
calça e casaco e mergulhei no lago. Nadei de uma ilha
à outra. 20 metros de profundidade, mais ou menos 3 graus de
temperatura, e pouco ar para respirar junto com a altitude (3800
metros de altitude). Nadei sem parar enquanto um frio
inacreditável congelava meu corpo. Na outra ilha, conversei
bastante com um nativo que me explicou que alguns realmente vivem
nas ilhas, mas que nesta época todos querem vender
bugingangas e tirar um troco dos turistas.
A volta foi ainda mais sinistra, pois estava com o corpo já
um pouco gelado e resolvi voltar mais tranquilo. Meu corpo
começou a doer bastante, e foi impossível fazer um
pipizinho que havia planejado. Ao sair da água, meu corpo
doía bastante e levei uma meia hoa de casaco, pulando e
tentando me aquecer para que meus ossos, músculos e sange
voltassem à temperatura natural.
Fantástico,
a maior aventura da viagem, e me enche de orgulho. Nadei no
Titicaca!!!
Depois,
nada de mais: ônibus para Desaguadero, na fronteira
Perú x Bolívia. Comecei o relato no ônibus e
termino num barzinho na rodoviária, quero dizer, no ponto de
ônibus de La Paz. Nosso ônibus para Cochabamba sai
23h00. Às 7h00 estaremos lá. A Bolívia
é pobre, já deu pra notar.
Arthur - 22h15.
Estamos num barzinho meio tosco. Aqui, como no Perú, os
refrigerantes são servidos à temperatura ambiente, ou
seja, bem mais quentes que no Brasil. Horrível. Tudo bem que
faz muito frio, mas mesmo assim!
Bom, o dia começou com um passeio pelo Titicaca.
Começou meio sem ar também, devido à uma
corrida dada de manhã por mim até o mercado. Na van,
vimos que éramos todos gringos.
O Mario já descreveu bem o Titicaca. Imenso, parece um mar.
Um privilégio conhecer num curto espaço de tempo o
rio Amazonas, as cordilheiras dos Andes e o lago Titicaca.
Espantosos todos.
O passeio em si não tinha grandes atrativos, além do
lago. Tinha umas ilhas flutuantes, de uma espécie de
capim-bambu. Assaz intrigante. Acabou que fizemos contatos com
outros gringos; esse foi um aspecto interessante.
Como
a grande maioria dos estrangeiros que conhecemos em toda a viagem,
os daqui são simpáticos, com variações.
Chamou-me a atenção o contraste entre a australiana
gente fina e a francesa meio grossa. A primeira era uma pessoa
totalmente pra cima, de bem com a vida. É australiana, mas
mora em São Paulo com o namorado. A segunda era o oposto,
sempre vendo tudo pelo lado negativo, com um excesso de sarcasmo.
É curioso duas pessoas tão diferentes num mesmo
passeio.
Outro grande detalhe foi o mergulho do Mario nas águas
gélidas do Titicaca. Nadou até a outra ilha. Espantou
a todos. Uma grande história para contar aos netos (e a
todo mundo), além de minutos de sofrimento pelo frio ao sair
da água, heheheh.
A volta foi meio correria. Li um pouco de Mafalda, do livro que o
Mario comprou. Achei interessante. Pegamos o ônibus pra
fronteira, e pronto. Estamos na Bolívia. Pegamos uma kombi
velha para La Paz (é o único meio de trasnporte daqui
para La Paz), e agora estamos esperando a partida de nosso
ônibus para Cochabamba, última cidade da viagem.
Estamos vendo um programa de auditório bizarro
agora.
A viagem está terminando. Estou com muitas saudades da
namorada, do país, dos amigos.
Adendo: como há muito tempo não faço adendos,
aqui vai um.
Nesse mesmo bar tosco que estávamos, haviam 2
indivíduos ruins, mas ruins mesmo - bêbados até
quase cair. Provavelmente beberam La Paz inteira.
A
"estação de ônibus" é a coisa mais
bizarra do mundo. Não dá muito pra descrever:
não tem um lugar central, são vários pequenos
pontos de venda, com gente pra caramba; o embarque é na rua
mesmo, com muita confusão e sem nenhuma
informação. Os próprios bolivianos não
entendem. O detalhe é que, nessa hora, estava um frio
de lascar, aproximadamente 4 graus. De longe, o maior frio que
já senti na vida.
Nossos temores que a viagem para Cochabamba fosse perrengue se
confirmaram, de certa forma. O ônibus era quente (que bom),
mas o banheiro estava trancado, e o motorista não tinha a
chave. Ou seja, não havia banheiro. Nada mal para uma viagem
de 6 horas e meia. Mais ou menos com trinta minutos de viagem, as
TVs do ônibus começaram a exibir 2 filmes (ou melhor,
1 filme e meio). Horrendos os filmes, e com um volume
altíssimo. Qual o sentido de, num ônibus leito, que
sai à meia-noite, ter uma televisão com um volume
desses, quando todos querem dormir?
Depois de uma rápida parada para banheiro (segundo o Mario,
a temperatura a essa hora, uma e meia da manhã, estava em
torno de zero. Que bom que fiquei no ônibus, hehe), o
ônibus começou a adentrar numa área de muitas
montanhas. Lembrei-me da estrada para Parati! Parecia que
fazíamos "8" o tempo todo, ou que andávamos em
círculos. O tempo todo, pra lá e pra cá, um
horror. Obviamente, o Mario dormiu ferrado o tempo todo,
heheheh.
Terminando
esse longo adendo, lembro-me da forma como o sujeito do "terminal
rodoviário" escreveu o meu nome na ficha. Ele escreveu
"Arthur" da seguinte maneira: "ACTUF". Fiquei boquiaberto ao ler.
Às vezes erram, mas isso é demais. Nem falei o
"Engel", peguei a caneta e escrevi eu mesmo. "Actuf" é
demais! : )
Legenda: Arthur e Mario numa das ilhas de totora, no meio do Titicaca.